É necessário ter tido um passado difícil para dar valor às coisas importantes da vida?

É necessário ter tido um passado difícil para dar valor às coisas importantes da vida?

J.K. Rowling, famosa autora dos livros de Harry Porter, fez um emocionado discurso para os formandos de Harvard, em 2008, sobre os benefícios do fracasso. Narrou que experimentou o fracasso quando se viu recém-divorciada, mãe solteira e desempregada. Só não estava pior que os mendigos de rua. Sentiu-se livre porque o que mais tinha receio já estava acontecendo. Fez do fundo do poço uma base sólida para reconstruir sua vida. O fracasso lhe deu a maior segurança interna que já teve para fazer o que mais sabia e amava fazer, usar a imaginação contando estórias. E foi contando estórias que figurou na lista dos bilionários, da revista americana Forbes.

Facilmente encontramos exemplos como esse, de indivíduos que usaram sua condição de miserabilidade financeira ou de apoio emocional para se superarem. Alcançaram realização pessoal e nos negócios e ainda conseguem motivar outras pessoas a reagirem frente às adversidades.

De outro lado, vejo pessoas que nasceram e permaneceram amparadas financeira e afetivamente por familiares e amigos. Umas curtindo e exibindo essa condição privilegiada, como é o caso da ex BBB Ana Paula Renault, sendo inclusive criticada por isso; outras sofrendo com seus problemas psíquicos, sem conseguir aproveitar sua situação “vantajosa”, como é o caso de algumas pessoas que sofrem depressão.

Não da pra saber quem sofre mais. Aquele pai de família que está na rodoviária, querendo voltar para sua terra natal com esposa e dois filhos pequenos, mas sem dinheiro suficiente para a próxima refeição, menos ainda para as passagens; ou aquele rapaz jovem, bonito, com emprego estável e apoio financeiro do pai para fazer o que quiser, podendo contar com o afeto do irmão e dos amigos, mas que sofre, mas sofre muito porque não sabe dizer não, acha que, onde quer que vá, tem sempre alguém querendo prejudica-lo, não entende porque algumas coisas acontecem com ele, toma remédios para depressão, acha que terapia não vai ajuda-lo, não vê saída.

Acredito que não importa o que te foi dado ou tirado, mas sim o que você consegue e está disposto a fazer com isso. Não da para medir o sofrimento de ninguém. Caetano Veloso disse “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

Ter a humildade de aceitar que ninguém tem o controle total sobre a vida, pode ser sinônimo de força para vencer os dissabores.

Concordo com a escritora de Harry Porter quando diz que a imaginação tem o poder de fazer com que nos coloquemos no lugar de outros seres humanos que tiveram expediências que nunca tivemos e que aprendamos com isso.

Quando trabalhou para a Anistia Internacional, em Londres, presenciou sofrimentos muito mais profundos que os dela, ao ter contato com vítimas de tortura física e psicológica. Sentiu-se sortuda. Testemunhou também a solidariedade humana. Pessoas ajudando pessoas que nunca tinham visto.

“Diferente de qualquer outra criatura nesse planeta, os seres humanos podem aprender e compreender sem terem experimentado. Eles podem pensar em si mesmos na mente de outras pessoas, se imaginar no lugar de outras pessoas.”

Assim, não é necessário ter tido um passado difícil, ter chegado ao fundo do poço, para aprender a valorizar as coisas importantes da vida. Nem é preciso que ocorram as coisas de que mais tem medo para que se sinta livre.

Aceitar você do jeito que é; aceitar o outro do jeito que é; aprender como você funciona; imaginar-se no lugar do outro para entendê-lo; compartilhar experiências, pedir ajuda e ajudar. Essa simbiose é que fará com que enxergue e usufrua as coisas mais importantes da vida.

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